cassule e kassuleA luta política tem coisas que só os mais atentos conseguem perceber. Os políticos buscam sempre formas de criar factos e de nos prender a atenção, mostrando-se sempre puros e cheios de boas intenções.

É tudo virgem! Um político só se mostra um ser humano, que erra e tem memória dos seus erros quando apanhado. E, mesmo assim, procura de imediato dar a volta por cima, como o caso do congressista americano apanhado com droga que logo se declarou culpado e que vai doar o seu salário para instituições de caridade enquanto cumpre o seu ano de “prisão condicional” e se limpa do vício. O homem ainda é capaz de ganhar votos nas próximas eleições.

Mas há coisas de que a nossa memória não se deve dar ao luxo de esquecer. E há coisas com que nem a política deve brincar, mesmo nesse campo do vale tudo.

Temos em Angola uma disputa política que esqueceu quase que por completo o carácter humano das pessoas e famílias lesadas. Kamulingue e Cassule, dois jovens desaparecidos em circunstâncias ainda por esclarecer totalmente, são agora nomes apenas. Nomes que simbolizam actos heróicos e a repressão do regime para alguns, e nomes cujo uso simboliza o mais vil aproveitamento político da desgraça alheia, segundo outros.

A disputa política chegou ao ponto de rapidamente a UNITA anunciar que realizará uma marcha em protesto contra o que aconteceu aos dois jovens. Até aqui parece que as coisas ainda são pacíficas, mais ou menos.

No entanto, também se percebeu pelos discursos, ao longo do último fim-de-semana e dos dias subsequentes, que a marcha pretendida estava a ser preparada para protestar contra o poder, responsabilizando-o directa e institucionalmente pelas mortes dos jovens. Este facto torna imprevisível o desfecho do pretendido acto, porque obriga o poder a defender-se dentro da sua legitimidade, em vez de observar e garantir que a marcha decorra sem incidentes apenas.

O desfecho pode ser imprevisível (a não ser que essa imprevisibilidade seja cogitada e desejada) porque o protesto acusatório pode tornar-se rapidamente num acto condenatório e executante. E isto o poder não tolerará. E tem uma argumento simples: vivemos num país democrático em que as instituições funcionam e as instituições que devem tratar deste caso estão a funcionar, como se viu pelo comunicado da PGR. Qualquer acção fora deste quadro cai na ilegalidade e no desrespeito aos valores da democracia. Irá a Oposição arriscar tanto? Antes que se conheçam cabalmente os resultados das investigações da PGR, já a Oposição elegeu os seus culpados, neste caso o seu culpado.

O povo, este fica confuso, porque a PGR anunciou detenções, o povo quer saber de quem se trata e do seu grau de envolvimento no crime, as razões e outras conexões. Estas respostas devem ser dadas rapidamente quanto possível pelas autoridades.

O cidadão está neste momento entre a expectativa nos resultados das investigações e a mensagem que lhe vem num pacote já fechado divulgado pela Oposição, com a UNITA à cabeça, com conclusões e culpados. O que o povo deve saber é que isso é sobretudo política, o chamado oportunismo político, próprio de todos os políticos e de todos os partidos. O ideal é que se façam os protestos que se quiserem, a Oposição tem este direito legal, mas deve também respeitar o direito de governar de quem ganhou as eleições há um ano com os valores expressivos como ganhou. E já agora, respeitando-se as famílias, deixando que a verdade apareça, o que, seguramente, não acontecerá sob o manto da política.

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Patriota, que aborda a política angolana, com isenção, imparcialidade e rigor analítico.

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